segunda-feira, 9 de novembro de 2009

De vestidos, pernas, erotismo, educação, expulsão: o caso UNIBAN!

Parece que já se disse, já se escreveu e já se leu de tudo sobre o caso do micro vestido na UNIBAN. Então, escrevo sobre o óbvio, mas ainda assim escrevo...

Vivemos sob o signo da vulgaridade e da violência. Meninas com umbigos à mostra, supostamente, porque há um piercing ali colocado. Meninas com decotes generosos, costas de fora... normal?!

Sintonizam-se emissoras de rádio AM e FM de qualidade duvidosa e o que se ouve: ritmos frenéticos, excitantes e letras vulgares, em que, especialmente, a mulher ocupa o espaço da transgressão, ela é vaca, eguinha, cadela, não vale nada... sem contar outros termos bem mais pejorativos que ora são explícitos, ora ficam subentendidos, mas a imaginação do brasileiro é fértil e...então, são dispensadas as explicitações devidas.

Violência? A violência está em casa, no pai que bate na mãe, na mãe que bate no filho, no filho que bate no cachorro...é uma lógica cruel! A violência está no trabalho: se você representa obstáculo para a minha ascensão profissional, lamento, você se torna meu inimigo e eu uso, sim, eu uso “todas as armas” letais e não letais, difamatórias, mesquinhas para derrubá-lo.

A violência está na escola e... como está!!!! A primeira violência é produzida por aquele professor que, no meio da algazarra dos seus alunos, grita: “Eu vou cobrar isso na prova”, incapaz de preparar uma aula atraente, ele se vale do poder para intimidar. Tudo bem, você pode argumentar que o professor também é vítima da violência e eu até ouso concordar! Agora, me responda: eu conclui o curso de graduação em 1997, optei pela docência no magistério público em 2000 e eu sabia na “m...” que estava entrando, então, eu sou adulta e, portanto, responsável pelos meus atos! Se eu não aceitasse as regras do jogo, eu não deveria ter entrado. Vale a mesma lógica para os demais professores (ou não)? O aluno não tem culpa da nossa opção, em consequência, ele não merece ser o nosso “saco de pancadas”!

Ainda é preciso refletir sobre o ensino superior. Supostamente a elite intelectual está em cursos das universidades públicas, restando, pois, “o resto” para as universidades particulares. Eu lecionei em duas instituições particulares. Na primeira, todos eram pessoas simples, vestiam-se com certa uniformidade (calça jeans, camiseta, tênis), independente do curso. Na segunda instituição...caramba! Eram saltos altíssimos, loiras oxigenadérrimas...roupas totalmente in, vigorava a cultura do parecer, pouco importava o ser!

Do ponto de vista profissional, na primeira instituição, eu era, eu estava professora, eu tinha status de professora e era respeitada como tal. Na segunda instituição, eu era uma balconista que vendia conhecimento. Ah, e não podia discordar do diretor, da assessora pedagógica, da professora mais velha do curso, da professora mais nova do curso, porque afinal, todos faziam parte de uma elite decadente de uma cidade decadente!

Tudo isso para pensar na moça da UNIBAN. Ela é resultado de uma sociedade que estimula o erotismo, a sensualidade. Se assim o for, é normal que ela use um micro vestido, opte por maquiagem que ressalte seus traços. Ou, a erotização/vulgaridade apenas é válida para os outros, aqueles que não convivem conosco, não cruzam o nosso caminho?

Uns “bichinhos mal adestrados” manifestaram-se diante do micro vestido, da maquiagem, do rebolado, das ancas salientes, dos brincos (vai saber quais são os fetiches alheios!). Normal ou não é normal que as pessoas externem suas emoções? Se bem me lembro, existe até uma corrente da pedagogia que afirma que o aluno precisa exteriorizar seus sentimentos, que é necessário incentivá-lo a tal! Normal, portanto. Até mesmo a elite pensante atenua este tipo de comportamento. Ou a teoria só é válida para crianças e adolescentes?!

Se ladrões, corruptos, mentirosos não são presos. E estas mesmas criaturas têm o direito em CPIs de ficarem calados! Se assassinos, estupradores são presos e, em seguida, liberados por habeas corpus para aguardarem sentença em liberdade ou o que é pior: “progridem” para o regime semi-aberto e fogem!

Se as instituições de ensino superior tornaram-se lojas de departamentos em que o suposto acadêmico adquire um diploma; se os profissionais que atuam nestas instituições, em geral, são submetidos a assédio moral...

Pergunta: por que a repercussão?

Ah, claro! Ela foi expulsa!!! Peraí, o que tem se visto com a maior naturalidade nos últimos tempos? A renúncia ou “a blindagem” de políticos corruptos, isto é, dito de outra forma: “joga-se o lixo para baixo do tapete”. Então, por que a tal UNIBAN não pode fazer o seu jogo cênico?

Não sei, mas desconfio que tudo isso é fruto de uma sociedade gravemente doente e, tenho com os meus botões, que o paciente, na UTI, não tem a medicação necessária (coisa que, aliás, é normal nos hospitais do SUS!). Mas a rainha da Inglaterra deve ter gostado de conversar com “o cara” e isto faz a alegria e a felicidade geral da nação...

Não, o Lula não é culpado por tudo de errado que acontece nesta nação, mas ele é um exemplo lapidar do "jeitinho brasileiro"!

sábado, 7 de novembro de 2009

Blogagem coletiva - Brinquedos de ontem e de hoje

A gente sempre pensa que nossos pais já nasceram grandes e parece-nos, santa ingenuidade, que eles nunca brincaram.


Já faz alguns anos, a música vencedora do maior encontro nativista do estado, a Califórnia da Canção Nativa, agora decadente, foi "Tropa de osso".

A letra da música era algo como "tropa de osso quem não teve quando piá, ou não foi piá, ou não viveu como nosotros". Lembro que, em uma atividade na escola, a nossa turma apresentou esta música - ficou até bonitinho, todas as meninas sentadas no palco, pernas cruzadas, formando um semicírculo. Durante dias, eu cantarolei a letra da música e, em um domingo, ao meio-dia (um dos poucos momentos em que nos reuníamos pai, mãe e eu - o horário das refeições do pai era diferenciado em função do trabalho dele), o pai me perguntou se eu sabia o que era uma tropa de osso. Confesso que me desconcertei, nunca tinha prestado atenção na letra, nunca tinha me indagado sobre tal: tropa de osso eram ossos descarnados, já lisos, que as crianças usavam como bois, cavalos, terneiros, ovelhas (dependendo do tamanho) e, então, por alguns momentos, eles eram fazendeiros, donos de vastas propriedades estancieiras, criadores de gado da melhor qualidade...passado o momento mágico da imaginação, eles voltavam à condição de filhos dos agregados, dos trabalhadores rurais. Era um tempo tão simples, em que o poder estava na mão dos poderosos e o trabalho era feito pelos humildes, pelos iletrados, mas era tão simples sonhar, não havia a interferência do rádio, da televisão, das notícias veiculadas no mesmo instante em que acontecem no outro lado do mundo e, principalmente, não havia a ânsia capitalista que difere, mas iguala, jovens através de marcas de tênis, de camisetas, de celular... outros tempos!

A mãe, cuja infância foi marcada por alguns acontecimentos tristes, sempre contava que as bonecas eram feitas de pano, mas que as bonecas realmente interessantes eram feitas de milho, aquele milho descartado na lavoura, em que os grãos não servem, mas restam a palha e "os cabelos" (o pendão)... imagina, só: a grande diversão era pentear as tais bonecas e o grande sofrimento era "a calvície" que, paulatinamente, acometia-as..."os cabelos" do milho não resistiam ao penteado. Existe uma lembrança que não se vincula diretamente a brinquedos, mas que é tão terna, tão clara de que, naquela família, existia muito amor: na Páscoa, a minha avó fazia "ovinhos", cascas de ovos recheadas com amendoim... e, no sábado, ela determinava que o pátio fosse limpo, mas limpo de não ficar uma folha... no domingo, a mãe, as minhas tias e os meus tios acordavam cedo, o pátio "reluzindo" de tão limpo e as "patas" do coelho indicando os possíveis locais em que estariam as cestas. Claro, havia pistas falsas que conduziam a nada, mas havia pistas que conduziam a cestas recheadas de "ovinhos", rapaduras, doces de coco, bolachas...cada um dos 11 filhos ganhava a sua cesta, e as cestas eram idênticas...já pensou, entre 11 filhos, separar os mais afoitos que, por ventura, se julgassem logrados?!

Minha infância não foi exatamente uma infância de riqueza, claro que eu tinha bonecas, brincava de casinha com fogão, panelas e até fazia "comida", de pedrinhas, de barro, de mamonas...Adorava uma boneca de papel em que era possível "pregar" as peças de roupa, trocava-a várias vezes ao dia; desenhava, recortava e ornamentava os "modelitos", levava-a ao colégio e, então, comparavámos as mais "in"!!!!

Só que, agora, de repente, me convenço que o meu vínculo às diversões é, a exemplo do meu pai e da minha mãe, bastante telúrico. Morávamos em uma zona dominada por terrenos baldios, mas incrivelmente limpos, verdadeiros campos, embora estivéssemos a duas quadras do centro da cidade. Como não havia divisões entre os terrenos, havia muito espaço para brincar e a brincadeira preferida era transformar os declives do terreno em quartos de hotéis...põe imaginação: nunca havíamos adentrado a um hotel, mas estabelecíamos a mesa de refeições, o salão de leituras (uma espécie de área de convivência para os hóspedes), alguns quartos tinham rádio, ouvíamos notícias que, depois, comentávamos no tal salão de leitura. Claro, os quartos mais importantes tinham até televisão e os hóspedes destes quartos complementavam as "notícias" dadas pelos hóspedes dos quartos mais humildes.

Quando afirmo "nós", refiro-me a um grupo de crianças da vizinhança: a Mana, a Maninha, o Paulinho, o Gelson, o Giovani e mais umas meninas de origem germânica que o tempo, decididamente, apagou os nomes que estavam em minha memória.

Outra diversão extremamente ligada à natureza era a pescaria. Existe um córrego que margeia a cidade e lá íamos nós: caniço, anzol, iscas...pesquei um único peixe, gritei tanto que ele teve tempo de desvencilhar-se do anzol e voltar para água! E ainda é preciso citar a suprema diversão: comer pitanga, subir na árvore, apanhar pitanga e lá, em cima da árvore, comer pitanta. A gente tinha a impressão que havia uma "lavoura" de pés de pitanga, muito próximos, por aproximadamente uns 50, 60 metros.

Aos 18 anos, comecei a trabalhar e, em seguida, tornei-me atendente em uma loja de departamentos. Era a época dos videogames, meus Deus (!), que coisa insuportável aquele som, ligado o dia inteiro para atrair a gurizada e, claro, seus pais para comprarem. Lembro-me que um vendedor, com frequência, cortava a energia da área em que os videogames eram expostos...a paz refulgia dentro da loja, eram instantes de silêncio, de tranquilidade. Nunca consegui entender a graça de manejar um "joystick" e imaginar-se em uma batalha interestelar (ainda se tivesse um Hans Solo como piloto!!).

Não convivo mais com crianças. Meus primos cresceram, meus vizinhos cresceram. Vez por outra, na rua, ainda se pode "topar" com alguns meninos jogando "pelada", desconheço os brinquedos de hoje para faixa etária dos 7 aos 14 anos, mas, depois dos 15 anos, quando eles se tornam meus alunos, eu sei qual é a brincadeira: torpedo SMS, twitter, facebook, orkut, msn: em uma palavra, máquina!

Não me passa pela cabeça dizer que o tempo dos meus pais era melhor ou que a minha infância compreendia um "ai que tempo bom", era bom, sim, respondia aos interesses daquelas crianças, daqueles adolescentes...hoje, os interesses são outros, os brinquedos, as diversões são outros e é preciso respeitar a evolução, as transformações da humanidade.

Não, eu não quereria voltar; sim, eu sinto saudade, mas são lembranças de um outro tempo, de uma outra realidade...cresci, amadureci, aprendi...e, que bom, tenho recordações, tenho histórias de alegria, carinho, respeito, simplicidade para contar.



Este texto faz parte da blogagem coletiva "Brinquedos: dos mais antigos aos mais recentes", proposta para o mês de novembro pelo blog Vou de coletivo

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