Não tenho problema algum em relação a minha idade, nasci 30 dias antes da famosa “Revolução Democrática”, ocorrida em primeiro de abril de 1964 (sim, a História falseia o fato e conta-nos que a tal Revolução teria acontecido em 31 de março, afinal, seria ridículo que ela tivesse ocorrido no dia da mentira!) e que teria livrado o Brasil da sanha comunista, dos devoradores de criancinhas, do temido Grupo dos Onze...Quanta balela! Aliás, você sabia que, supostamente, Restinga também teve o seu “Grupo dos Onze” e que eles estiveram, inclusive, presos para “averiguações”?
Voltemos à questão da idade. Parece-me que, nos últimos 20 anos, sempre convivi com jovens/adolescentes e, talvez, por isso, tenha mantido o espírito jovial (e tão irônico quanto conseguem ser os jovens), mas, nos últimos tempos, comecei a desconfiar que, de fato, envelheci (na fluidez da pós-modernidade (oh, Santo Bauman), 48 anos é, sim, velhice!). Sabe por quê?
Primeiro, uma ex-aluna, atualmente, cursando mestrado em Geografia procurou-me visto que o seu projeto de dissertação versa sobre a Estação Ferroviária (e como, em aula, sempre fui boa contadora de história, ela lembrou-se que eu poderia conceder-lhe um rumo na pesquisa), pouco recordo da Estação, do movimento da gare, se bem que, com certeza, vivi a grande novidade que foi o trem “húngaro”. Ainda assim, a ex-professora indicou-lhe alguns nomes e eis uma dissertação de mestrado a caminho para recuperar parte da nossa memória (muito desta memória já se acha enterrada, perdemos bons contadores de história nos últimos anos).
Pois é, Bauman, Bhaba, Landowsky e Cia têm razão, envelhecemos cedo demais, mas... Peraí?! Já pensou como é bom ter história para contar, a história que está à margem, que não foi registrada em livros, em compêndios e, além disso, ter a capacidade de criticar supostas verdades eternizadas, relativizar o mundo que, nos contaram, seria perfeito... Fala sério! Eis uma experiência que vale a pena ser vivida: ter um passado, desprovido de dogmas, de pré-conceitos e ter, sim, o discernimento para sair do lugar comum e aceitar a limitação das coisas, isso é, de fato e de direito, um aprendizado de vida.
Por que escrevi isso? Para os jovens que, hoje, têm, em casa, o vovô, a vovó, a titia, os pais e mesmo que eles pareçam defasados, “caretas” (oh, palavra mais “out”), eles têm história... Então, faz assim: dá um tempo no FB e ouve os que te cercam, porque, se não o fizeres, talvez, haverá um tempo em que não teremos mais memórias. Um agradecimento, entre outros, ao seu Ciro Mostardeiro, ao seu Alberi Magoga, ao seu “Deoclécio da areia”, ao meu pai, que me legaram histórias para contar, muitas delas extraídas daquela inominável experiência que foi o projeto conduzido pelo Condesus e que, na Escola Erico Verissimo, nos permitiu recompor parte da história da sanga da Restinga. Se sou velha, ótimo, tenho memória e não esqueci coisas que, para muitos, nada significam, mas que nos dão identidade, forjaram-nos naquilo que somos e naquilo que estamos deixando como herança para os seres humanos que nos sucederão na Tinga, no Rio Grande, no Brasil, no mundo.






2 comentários:
Adorei a crônica Elaine! Até me peguei pensando como as nossas memórias vão se tornando mais ricas e mais importantes quanto mais distantes, cronologiamente, vão ficando... ih! estão vindo cenas da mais tenra infância...
E daí, né, Vilson, bate uma saudade, mas uma saudade de coisas boas, de coisas que nos fizeram ser o que somos...sinto-me muito mal ao ver que a memória da Tinga não tem sido preservada...muito já se perdeu e muito está sendo perdido...uma lástima.
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